Estanciano x Lagarto: O jogo que não aconteceu por conta de acidente que matou seis a caminho do estádio Paulo Barreto de Menezes

Estanciano  x  Lagarto: O jogo que não aconteceu por conta de acidente que matou seis a caminho do estádio Paulo Barreto de Menezes

O Estanciano Esporte Clube já sofreu várias derrotas, tomou várias goleadas, daquelas de doer na alma do torcedor apaixonado, uma delas foi Estanciano 2 x 9 Sergipe, mas nenhuma pode ser comparada à tristeza provocada pelo fatídico acidente automobilístico ocorrido no dia 20 de abril de 1979.

O Estanciano estava em fase de pré-temporada para o campeonato sergipano, e como é comum acontecem os jogos amistosos, e nesse dia a peleja seria contra o Lagarto Esporte Clube no Estádio Paulo Barreto de Menezes na cidade de Lagarto.

Naquela época os clubes do interior viajavam em condições precárias (exceto o Itabaiana), e só se deslocavam de ônibus quando o time ia bem no campeonato e entrava algum dinheiro de bilheteria, mas o normal era fazer o translado dos jogadores, comissão técnica e diretoria de Kombi e veículos particulares de torcedores e membros da direção.

Jogava-se por amor à camisa mesmo, porque salário só se sobrasse alguma coisa depois de pagar todas as despesas, inclusive se o atleta quisesse uma chuteira de boa qualidade teria que comprar com o próprio dinheiro.

Os jogadores, comissão técnica e torcedores seguiram para Lagarto no início da noite e na BR 101 Km 137, nas imediações do Posto das Mangueiras (hoje em ruínas) o veículo Chevette, dirigido por Nadinho (filho de Dona Margarida do Hotel D. Bosco), colidiu com um caminhão tanque que coincidentemente tinha como condutor um estanciano de nome China.

No Chevette estavam além do motorista Nadinho, os jogadores Zé Maria e Rui,  mais um funcionário do clube, Seu João Francisco, conhecido como João Papá, o seu filho Luiz Teixeira, que jogava nas divisões de base, e um torcedor de nome João Monteiro.

Dos ocupantes do Chevette cinco morreram na hora, e um ainda sobreviveu por uns instantes, mas faleceu  também no local antes do socorro chegar, foi o meio campista Zé Maria que preso nas ferragens e já se entregando, alternava  fracos gemidos e pedidos de socorro.

Uma parte da equipe e alguns torcedores que passaram pelo local do acidente, desceram para olhar e não reconheceram os ocupantes do veículo devido ao estrago, exceto o meu irmão Cacá que observou o fato de a camisa de um dos mortos ser igual a de Luiz, identificada por conta de uma estampa (eles eram amigos).

A observação de Cacá não levou crédito, talvez porque não quisessem aceitar a dura realidade que seria confirmada uma hora depois quando alguns jogadores e torcedores já estavam no Estádio Paulo Barreto de Menezes em Lagarto.

Assim que souberam da notícia retornaram para Estância, somente o presidente Renato Silva e parte da diretoria seguiram para o IML em Aracaju para identificar e liberar os corpos.

Parte da torcida e dos jogadores nem chegaram a sair da sede do Estanciano, pois ficaram sabendo da notícia ainda lá.

A tragédia dominou os noticiários do estado e a cidade de Estância entrou em luto a partir daquele momento enquanto aguardava a liberação dos corpos que aconteceu com intervalo de horas.

Em um dos carros que levava a torcida estava José Carlos Teixeira, hoje aposentado pelo DNIT (filho de Seu João Francisco e irmão de Luiz Teixeira, mortos no acidente), mais Cacá (meu irmão), Juliano (Jupí Meia Garrafa), Zé de Eleonor (Bueiro), primo de Clovis Barbosa conselheiro do TCE e Joílson Pintor,  que era o motorista e também proprietário do Corcel.

Segundo Manelão, ex-jogador do Estanciano, Santa Cruz e Penedense, ele estava escalado para ir no carro que foi envolvido no acidente, mas na hora Rui (goleiro) se antecipou e foi no seu lugar. Pra quem acredita em destino tá aí um bom debate.

Entre a madrugada e as primeiras horas da manhã os corpos foram chegando. Se não me falha a memória os últimos foram os de Zé Maria e Rui que foram levados para o Hospital Amparo de Maria para colocá-los em condições de serem vistos no velório, que aconteceu na igreja do Rosário (da Irmandade dos Homens Pardos e Negros), no centro da cidade, que recebeu milhares de parentes, amigos e curiosos até a hora do cortejo fúnebre. Todos os corpos saíram de lá.

Como dissera no início do relato, em um  dos carros com torcedores que parou no local do acidente e não reconheceram os ocupantes do Chevette (exceto Cacá), estavam Zé Carlos (DNIT). Não sabia ele que entre os mortos estava o seu pai (Seu João) e o seu irmão (Luiz). Zé Carlos informou que o que confundiu a identificação do veículo foi o fato de a placa ser de Salvador, além disso o caminhão ficou literalmente em cima do Chevette de cor branca que tinha o nome do Hotel Dom Bosco nas portas.

É duro perder um parente que você ama, imagine perder dois, que gozavam de boa saúde, uma vez que Luiz (18 anos) era um lateral direito de muito vigor, reconhecido pelo preparo físico e por suar a camisa.

Dona Maria Augusta esposa de Seu João e mãe de Luiz passou décadas sem superar a tragédia familiar. Ela é uma militante da igreja católica e o seu filho Zé Carlos segue na mesma toada, prova disso é que liderou  a construção de  uma pequena igreja no bairro em que reside (São Jorge).

Zé Carlos é de uma família de Atletas, tanto ele jogou futebol quanto os seus irmãos Luiz, Zé Antônio, Roberto, Anselmo e Adilson. Esse último era perna de pau, os demais tinham intimidade com a bola.

Lembro-me do Clube do Remo, time amador que tinha como diretor e jogador o próprio Zé Carlos, zagueiro que chegava junto nos atacantes sem pena. Quando ele fazia a zaga com Sinetão um derrubava e o outro pisava no pescoço. As confusões eram comuns. O Remo só perdia em confusão para o Camaleão, outro time amador da cidade.

Jogaram também no Remo, o meu irmão Cacá no gol, (eu joguei algumas partidas), os irmãos de Zé Carlos, Chiquinho do Leblon, um marceneiro de nome Roberto Dinamite, Roberto Bomfim (Marcha Lenta), Sinetão, Gilson Capitão (zagueiro), dentre tantos outros jovens do meu tempo.

Sobre as vítimas recordo do meia esquerda Zé Maria, um baiano que brilhou no Santa Cruz e se transferiu para o Estanciano onde jogou pouco tempo, o suficiente para conquistar o respeito da torcida pelo espírito de liderança.

Rui era goleiro que assim como Zé Maria jogou no Santa Cruz, era de altura mediana para a época (1,70) e baixo para os padrões de hoje, mas era arrojado e contava a seu favor saber sair do gol, porque na época a maioria se limitava em defender embaixo do travessão. Fisicamente Rui parecia muito com Zé Luiz, ex-goleiro do Confiança (requeijão).

Os demais mortos foram Nadinho, filho de Dona Margarida do Hotel Dom Bosco, uma mãe que viveu várias tragédias.

Ela perdeu em acidentes automobilísticos além de Nadinho (caminhoneiro), mais três filhos em ocasiões diferentes, como foi o caso de Zé Carlos ex-jogador do Santa Cruz e Estanciano (era também contador), Valdemir (militar em São Paulo) e Aroaldo (Médico).

Eu vi Zé Carlos jogar pelo Azulão e também pelo Canarinho, era centroavante goleador. Jogador “cerebral”.

Luiz Teixeira, lateral direito que passou por vários clubes juvenis e amadores, e se não tivesse morrido possivelmente subiria para o time principal.

Seu João era um senhor aposentado pela indústria têxtil do Grupo Constâncio Vieira, que era mais um colaborador do Estanciano do que um funcionário.

Ele tomava conta do campo do Cruzeiro (alçapão do Estanciano) e era responsável por todo o material do vestiário.

João Monteiro era gerente de loja de móveis e completava a renda como garçom e segurança de festas.  Para os estancianos que não se lembram ele era irmão do ex-vereador Zé Monteiro (Zé Boquinha).

Eu colhi informações com Zé Carlos (DNIT), Cacá (meu irmão), Manelão, ex-jogador, Joelson (sobrinho de Nadinho), Ailton (sobrinho de João Monteiro) sobre aspectos familiares e do futebol.

Segundo Zé Carlos, Cacá e Manelão, os jogadores que faziam parte do elenco do Estanciano naquele período eram: Marcos, Luizão, Dinho, Hélio Peixinho, Joel, Vevé, Bimbinho, Manelão, Valmir, Moscou, Guaiacol, Arauá, Narbal, Humberto etc.

Eu acho que parte desses atleta não foi desse time, mas como no Facebook as pessoas são livres para comentar, eu farei as modificações necessárias antes de publicar em jornal.

Escrever sobre futebol vai além do Real Madri, Barcelona, Milan, Liverpool, Flamengo, Grêmio, Palmeiras etc., é falar também sobre o futebol semiprofissional e amador, o esporte e a sociologia que o cerca.

A maioria dos grandes craques não ganharam dinheiro com o futebol e muitos viveram e outros vivem da aposentadoria que conquistaram trabalhando paralelamente a atividade futebolística, ou depois que penduraram as chuteiras.

Eu trabalhei na prefeitura com Moscou e Valmir, pois os dois não ganharam dinheiro suficiente com a bola, para sobreviver, apesar de terem jogado muito.

Nunca esqueci o fato de Valmir ex-jogador do Santa Cruz e Estanciano ter me pedido emprestado a minha chuteira para jogar as semifinais e finais do campeonato sergipano, e ele não era qualquer jogador, era o artilheiro do time e um dos artilheiros do campeonato.

Pra quem não lembra de Valmir – hoje eu o chamo de Pelé – foi aquele que na semifinal do sergipano fez um gol contra o Sergipe no Batistão de cobertura antes do meio do campo, o gol que Pelé tentou e não conseguiu.

Ele virou notícia na imprensa do estado e foi convidado por vários times da capital para assinar contrato. Até o “Diabinho” Wellington Elias, Sergipe roxo, se rendeu ao show que o canarinho deu no mais querido.

Toda vez que eu ouvia a reprise do gol de Valmir na narração de José Antônio Marques nos microfones da Rádio Cultura, eu me arrepiava.

Valmir ficou consagrado, entrou para galeria dos imortais do clube canarinho e eu perdi a chuteira, que ele pediu pra ficar como lembrança. Valeu à pena. Na época eu jogava na base.

Parte desse texto é mais dirigido aos estancianos, parte é universal, pois a tragédia é assunto que prende a atenção dos povos em qualquer parte do mundo, por isso as peças de teatro de Sófocles, Ésquilo e Píndaro escritas antes de Cristo na Grécia, fazem sucesso até hoje.

Inúmeras companhias continuam a encenar peças baseadas nas obras (tragédias) de Sófocles a exemplo de “Edipo Rei”, Édipo e Antígona” e Édipo em Colono”.

Não se deve indagar sobre tudo: é melhor que muitas coisas permaneçam ocultas. O pior não é morrer, mas ter de desejar a morte e não conseguir obtê-la. Não existe testemunha mais terrível – acusador mais poderoso – do que a consciência que habita em nós. (Sófocles)

Por: Professor Rubens Marques – #RMSDUDU 02/06/2020

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