Sergipe Repórter

Comentário sobre a tragédia em Petrópolis e as ocupações irregulares em nosso país, por Washington Reis.

Primeiramente lamentar profundamente a tragédia em Petrópolis e nossos sinceros votos de pesar aos amigos, familiares das vitimas desta triste quarta-feira 16 de fevereiro de 2022.

Há muitos anos vem se cobrando mais investimento na área de proteção de defesa civil e de outros órgãos de fiscalização e prevenção no Brasil e principalmente os que fiscalização áreas consideradas de risco. Porem deixa muito a desejar a forma de que os governantes pensam nesses investimentos como as pequenas e grandes construções a ‘beira do abismo’.

Esse conjunto de ações que tem medidas preventivas, de socorro, assistenciais, reabilitadoras e reconstrutivas que eles falam para a imprensa destinada a evitar esse tipo de desastre ou até minimizar os impactos para a população e restabelecer a normalidade social é um pacote de ilusões. Pouco se investe na área de prevenção neste país e quando se pensa em fazer algo à tragédia já aconteceu a exemplo do Morro do Bumba em Niterói daqueles 7, de abril de 2010. A tragédia matou 267 pessoas, porém, apenas 46 corpos foram encontrados.

Morro do Bumba, Niterói 2010 – Foto O Globo

No ano seguinte em 2011 às chuvas na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro por pouco devastou Petrópolis e cidades do mapa geográfico local, quando deslizamentos e enchentes daquele ano deixaram 918 mortos. Foi a maior catástrofe climática do Brasil.

Foto: Metrópoles

Para uma Defesa Civil mais eficaz falta investimento e um efetivo maior na fiscalização, e a palavrinha mágica é ‘iniciou a construção ordene que pare, aqui é uma área de risco’ e que no fim das contas se paga mais caro pela reconstrução de toda essa bagunça que fica e o pior, a vida que não volta mais.

“Trabalhei uma vida inteira para acabar tudo em poucos minutos”, disse um morador de Petrópolis que perdeu a sua humilde residência por completo e ainda busca por parentes em meio aos destroços desta tragédia.

Alguns vão criticar minha tese, vão dizer que a realidade é outra, que eu não sei o que estou falando e que joguei a culpa toda nos políticos, óbvio que não, a população tem uma parcela de culpa, mais a pobreza em alguns pontos deste País é tão extrema que as pessoas acabam buscando alternativas mais perigosas, longe da fiscalização e dentro de uma área que para alguns nada vai acontecer.

Esses povos constroem suas casas sobre solos inapropriados que no caso do Morro do Bumba em Niterói pra mim já tinha sido anunciado por conta das construções sobre o lixão que apenas recebeu uma camada de terra maquiando aquela área onde não poderia ser mais ocupada.

Nessa minha observação a falta de fiscalização, informação, campanhas sérias por parte dos gestores para mim é algo que deixa a desejar, pouco tem se investido e as consequências são as piores.

Quando falamos em construções alguns prédios públicos também são construídos nas encostas como aquele casarão do século 18 em Ouro Preto no Estado de Minas Gerais que foi abaixo após o deslizamento de terra em janeiro deste ano de 2022.

Foto: Metrópolis

Deixar construir imóveis em áreas de risco pra mim é omissão da fiscalização municipal, estadual e federal. Essas construções irregulares causam impactos preocupantes na vida das pessoas e na economia do nosso país.

Quando morava em São Gonçalo, região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro por muitas vezes viajava para a região serrana como a pacata cidade de Cachoeiras de Macacu, Teresópolis pra ver a Seleção Brasileira treinar e Petrópolis visitei umas duas vezes e percebia entre essas cidades as construções de vários imóveis irregulares nas encostas, não afirmando que essa tragédia recente foi por questões irregulares considerando ainda que essas cidades sempre que ocorrem essas chamadas tempestades, mudanças climáticas bruscas de verão são afetadas pelo grande volume de água concentrado em algumas áreas.  Acredito que não seja falta de planejamento de contingencias e sim de investimentos.

Sobre a criação de grupos voluntários para esse tipo de evento de desastres como outras ocorrências de grandes proporções e repercussões infelizmente ainda não existe na maioria das defesas civis esse importante item de auxilio, mais não é só criar a brigada voluntaria mais como também capacitar moradores que conhecem a geografia, a história e cultura local para tais ações de emergências.

Alguns desses desastres poderiam ser evitados “poderiam” se tivéssemos um estudo maior e claro que novamente tem que ter investimento, nada se constrói sem recursos e se não investe na prevenção investe na pós-tragédia na recuperação de danos que economicamente é trágico para o país.

Quando vai se vistoriar uma obra tem que analisar todos os riscos possíveis e constando irregularidades que de fato dão sinais de que algo está errado devem-se buscar soluções imediatas para conter ou até mesmo orientar seu povo a mudar de local entre outras ações preventivas.

Acredito que na ação de mitigação claro que nem sempre é possível evitar um desastre mais podemos evitar a perda de vidas e diminuir os prejuízos econômicos e sociais entre outros.

Washington e o que são essas medidas?

Não temos muito que fazer quando o assunto é falta de investimento e o básico é o que se fazem todos os dias, emitir alerta de temporais, monitorar eventos naturais e evacuação de áreas de riscos entre outras orientações, informações a população em especial aquelas que estão habitadas em áreas consideradas de riscos.

Olha que coisa interessante e que serve de alerta para a população de Estância, no Sul de Sergipe que vivem às margens do Rio Piauitinga.

Já ouvir relatos quando entrevistei famílias a beira do rio nas enchentes de 2019 em Estância, Sul de Sergipe que mesmo orientando a pessoa a sair imediatamente de sua casa e ir para um abrigo ou até mesmo casa de familiar por conta do risco de inundação e de desabamento dizer o seguinte.

“Daqui não saiu, daqui ninguém me tira, morro aqui dentro de minha casinha e minha proteção é o Senhor Jesus Cristo”.

Muitos moradores ignoram esse tipo de informação e Estância já tem histórico suficiente de risco desde aquela enchente de 10 de maio de 2009 quando o Rio Paiauitinga transbordou levando casas e pontes históricas. Mesmo em alerta as casas continuam as margens do rio e é só a tempestade passar que lá estão os moradores reconstruindo suas casas no mesmo lugar que foi devastado.

Voltando a Petrópolis

Falo agora das ações de respostas. O que são essas ações Washington?

Criar, capacitar pessoas, brigadas de incêndios para eventos como as grandes queimadas em vegetações e nas áreas de construções urbanas, treinar a busca e salvamento e os primeiros socorros para esses tipos de eventos, assistenciais a população e o restabelecimento dos serviços essenciais como a ajuda na distribuição alimentar, água e energia.

O cenário quando desolador é muito complicado de se controlar, existem vários fatores que naquele cenário de tristeza, de risco e de mortes compreendemos que naquele momento a única coisa a se fazer é a busca e o salvamento, tentar ajudar da melhor forma possível e evitar que nova tragédia aconteça em meio ao salvamento até que tudo volte a normalidade, claro que em parte, porque quem perdeu seus familiares, bens materiais não tem como colocar vida novamente no eixo em poucos dias, isso são coisas que carregamos por resto de nossas vidas.

Infelizmente 67 mortos na cidade de Petrópolis e provocou mais de 180 deslizamentos de terra.

Especialidades nas áreas de defesa civil e campanhas

Nas defesas civis temos que ter o máximo de pessoas especializadas como engenheiros, bombeiros militares e civis, geólogos, brigadistas entre outros que fazem parte deste conjunto de prevenção, é um assunto que se deve discutir para aprimorar os serviços prestados a sociedade e dar uma reposta o mais breve possível.

Outro ponto que acho importante e que não se ver muito são as campanhas nas escolas e na sociedade sobre o importante papel da defesa civil, as orientações aos jovens, os riscos, os primeiros socorros, os contatos de comunicação, códigos em casos de emergências e informações gerais sobre a geografia daquele local. Quando o assunto é prevenção deve ser tratado com prioridade.

Sabemos que construções nas encostas, nos morros, lixões e margens de rios um dia vai ter resultados trágicos e é ai que entra o papel dos órgãos de prevenção e proteção, avisar antes de desabar.

As ocupações de solo seja urbano ou rural tem que ser freada antes que uma casa se transforme em favela ou conjuntos habitacionais irregulares de forma desordenada. Existe um ditado que diz: “Ou põe ordem na casa ou vira bagunça” que resulta em mortes. Sabemos que não é fácil tirar do seu lar pessoas que trabalharam a vida inteira para ter seu sonho realizado e deve evitar, falo evitar o que quer dizer que não se pode na área de prevenção armengar. Criar uma rede de proteção nessas áreas com pessoas estudando o mesmo propósito é fundamental para a vida dos seres vivos, a fauna e a flora.

No que diz respeito ao sistema jurídico, as gestões municipais muitas das vezes ignoram sistematicamente o planejamento de suas próprias defesas civis, em alguns casos até a própria legislação existente. No entanto em algumas cidades brasileiras o que se ver mais são gestores que se preocupam apenas em dar cargos políticos a pessoas sem as mínimas condições de ocupação daquele cargo, não dar suporte em outras palavras não investem corretamente nas ações de proteção a vida.

É certo que existem dezenas de favelas no Rio de Janeiro, diversas habitações construídas desordenadamente, mas construída sobre um lixão desativado só havia uma, o que torna singular esse caso, morro do Bumba.

Se existem leis que proíbem essa ocupação em áreas sem condições geológicas apropriadas e porque permitem a construção. Percebo também que os governantes quando vão em busca de votos nessas comunidades de riscos devem observar que algo errado acontece bem embaixo de seu nariz e a história é sempre a mesma. “Vamos calçar essa rua, vamos trazer água, saneamento básico, energia elétrica, praças para os jovens e vamos construir casas populares e por ai”. Chega a ser contraditório quando usam desses argumentos de construir algo em áreas de riscos.

Ainda sobre gestão alguns estudos técnicos realizados por especialistas muitas das vezes não sensibilizam a gestão municipal a ponto de serem tomadas as decisões que previnem o desastre mais não concretizam. Mesmo com toda essa tragédia, testemunhos de pessoas que conviveram em Petrópolis e de pessoas especializadas no assunto que produziram os estudos e os explicitam em diversas entrevistas concedidas a imprensa isso só vai ser mais uma vez uma medida paliativa, depois a vida segue normalmente, não para aqueles que perderam famílias, casas, carros entre outros bens.

Por fim, dentro desse assunto de preveção trago um lembrente de algumas tragédias nesse percuso de meu comentário como por exemplo a tragédia no Alojamento do Flamengo em 2019 por conta de um curto circuito no ar condicionado, a Boate Kiss em Santa Maria, Rio Grande do Sul em 2013, Edifício Joelma em 1974, Gran Circo Norte Americano, Hospital Nestor Piva em Aracaju. Com esse comentário resume-se na realidade de nosso país onde leis são criadas e ignoradas, pessoas leigas e desavisadas sobre riscos, omissão do estado e municípios e falta de investimento na área de proteção e prevenção nos órgãos públicos. Não poderia deixar aqui o alerta quanto aos eventos públicos e privados que muitas das vezes não contratam os serviços de Bombeiros Civis, de Brigada de Incêndio, Guardiões de Piscina e Salva-vidas e só pensam nessa categoria quando já não há mais tempo de socorrer, sendo que existe a lei federal dos bombeiros civis e as legislações estaduais e que em Sergipe novamente são ignoradas. Infelizmente muitos eventos, edificações de eventos temporários, casas de shows, balneários são autorizados a realizarem suas festas mais não fiscalizados e esses organizadores já viciaram em só ganhar dinheiro, em lucrar sem as minimas medidas de prevenção em segurança contra incêndio e pânico e de primeiros socorros até que outra tragédia aconteça para servir mais uma vez de alerta. Lamentável.

Comentário de Washington Reis, agente de defesa civil afastado de suas funções por questões de saúde, bombeiro civil e jornalista/repórter-cinematográfico.

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