Sergipe Repórter

O Senhor dos Anéis tinha um cabaré camuflado em Aracaju

Por Adiberto de Souza *

Pra começo de conversa, o Senhor dos Anéis desse texto não tem nada a ver com o personagem do livro de fantasia escrito pelo britânico J. R. R. Tolkien. O nosso anti-herói nasceu no município sergipano de Maruim e foi batizado Horácio Nelson Bittencourt. Por este nome, contudo, até quem privou de sua intimidade não o identificaria, pois, desde jovem, ele foi apelidado de Nelson de Rubina, referência à sua mãe e pioneira da hotelaria em Sergipe, Maria Rubina dos Santos. Em 1919, essa laranjeirense instalou um hotel na praça Fausto Cardoso, esquina com a rua Pacatuba, no centro de Aracaju, onde posteriormente foi construído o prédio do Tribunal de Justiça.

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Conhecemos Nelson em meados da década de 70, quando fomos trabalhar no Hotel Norte-Sul, inicialmente na recepção e depois gerenciando os dois prédios, um de cada lado da rua Geru, entre as ruas Santo Amaro e Itabaianinha, Centro da capital. Vizinho ao Norte-Sul da esquerda, em direção à Rua da Frente, morava Nelson de Rubina, já setentão, mas administrando uma pensão para mulheres. Era, na verdade, um cabaré camuflado, onde também funcionava uma concorrida furna de jogos. Foi naquela mesa de carteado que conhecemos Maurício Guedes, o famoso pistoleiro Chapéu de Couro: nos tratávamos por “Oscar” e alimentamos a amizade por anos a fio.

O Senhor dos Anéis sergipano ganhou essa alcunha da historiadora Maria Luíza Pérola Dantas Barros, na monografia escrita por ela na Universidade Federal de Sergipe, em 2015. Nesse trabalho científico, a pesquisadora se reporta a um Nelson de 39 anos de idade, entre 1942 e 1943. Segundo o estudo, neste período, ele e três mulheres alugaram um carro de praça para levá-los à distante “Barra de São Cristóvão”, visando procurar pelo cadáver de um conhecido, passageiro do Navio Baependy, torpedeado pelo submarino alemão U-507. Uma tragédia da 2ª Guerra Mundial, na costa sergipana.

Três anéis e uma condenação

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“Não encontraram o corpo, porém a viagem para Rubina não seria em vão”, escreve a historiadora. Ao retornar da cadavérica expedição, Nelson levava consigo três anéis retirados dos restos mortais de uma das 270 vítimas do torpedeamento, identificada como Virginia Auto de Andrade, esposa do então procurador do Tribunal de Segurança Nacional, Gilberto de Andrade, “algo que, sem dúvida, acabou por agravar a situação de Rubina perante as autoridades da época”, revela Maria Luíza Pérola em sua monografia. As joias em questão eram um solitário de brilhante, de aproximadamente dois quilates e aro platino, um outro anel de ouro com uma garra de prata, além de uma aliança.

Denunciado após ter vendido os anéis, um deles em Maceió por “10 mil cruzeiros, a um senhor Brandão”, Nelson foi acusado pelo Ministério Público de Sergipe, com base nos os artigos 155 e 212 do Código Penal, referentes a furto e vilipêndio, respectivamente. Em 1943, o condenado apela da acusação e é absolvido. Não cumpriu um dia sequer de cadeia. É interessante destacar que, para as autoridades sergipanas, esse caso foi isolado. Em sua pesquisa, a historiadora conta que “o chefe de Polícia de Aracaju, Enoch Santiago, dizia, de forma estereotipada, que o sergipano era ‘pacato, correto e solidário’ e que algo um tanto inusitado aconteceu”, como se o episódio do nosso anti-herói tivesse sido uma exceção. Não foi!

No estudo “O fim do mundo começou no mar: os ataques do Submarino U-507 ao litoral sergipano em 1942”, os também historiadores Dilton Cândido Santos Maynard e Raquel Anne Lima de Assis escrevem que as coisas não ocorriam como propagava o chefe de polícia da capital. Segundo os dois estudiosos, o colar, a aliança, a pulseira ou o fardamento não serviram apenas para identificação dos corpos mutilados pelo ataque do submarino, naquela fatídica noite do dia 15 de agosto de 1942.

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Dilton Cândido e Raquel Lima escrevem que “o saque aos mortos, embora combatido e criticado, ocorreu com uma frequência distinta daquela mencionada nos registros oficiais. Por exemplo, as joias de Eduardo Alexandre Bauman, um segundo tenente convocado, foram ‘apreendidas em mãos de um indivíduo na Barra de São Cristóvão’. Após saquearem o corpo do rapaz de 27 anos, populares enterraram-no em 17 de agosto de 1942. Quando encontrado pelas autoridades, o cadáver apresentava esmagamento parcial de partes moles – dos dedos anular e médio da mão direita e uma contusão da região frontal”. Conta-se que, para furtar relógios, anéis e alianças, os saqueadores esmagavam – às vezes decepavam – braços, mãos e dedos dos corpos inchados que chegavam às praias.

Voltemos à rua Geru da década de 70:

A historiadora Maria Luíza Pérola Dantas Barros tem razão quando escreve em sua monografia que o nosso anti-herói possuía muita “habilidade em articular palavras e fatos em seu favor. Nelson não poupa argumentos na construção de sua imagem”, atesta a pesquisadora.

Morando na rua Geru desde que a mãe morreu e o Hotel de Rubina fechou, ele vivia do aluguel de quartos a prostitutas, homossexuais e quem mais se interessasse pelos aposentos, tal qual nosso amigo “Chapéu de Couro”, um alagoano que deu com os costados em Sergipe pelas mãos do irmão mais velho e também pistoleiro Floro Guedes, acusado de ter assassinado políticos no interior de Sergipe. As prostitutas podiam levar os clientes para os quartos e geralmente levavam, mas o trabalho delas era nos cabarés do centro e da periferia de Aracaju.

De conversa mansa e bem articulada, Nelson era um senhor branco, olhos azulados, de altura mediana, calvo e de fisionomia sempre tranquila. Tinha fama de ter sido um grande pé de valsa na juventude. Quando a conversa descambava para trabalho, ele costumava abrir as mãos grandes, de pele macia e dizer: “Essas duas aqui nunca souberam o que é calo.” À época que nos conhecemos, Rubina estava com cerca de 70 anos, mas gostava de mulheres novas e bonitas. Fazia questão de apresentá-las como “o meu novo amor”. Jogador de baralho inveterado, usava a “esposa” do momento para extorquir os desavisados que baixavam na pensão à procura dos prazeres da carne.

Calça no prego

A tática dele era a seguinte: seu “novo amor” convidava o incauto para o quarto do casal, pedindo discrição para não chamar a atenção do “esposo”, que, àquela altura, estava entretido apostando no carteado. Tão logo o infeliz se despia para iniciar o vamos ver, Nelson começava a bater à porta, solicitando um dinheiro que teria deixado no bolso de uma calça pendurada no prego da parede. Para que o “marido traído” não entrasse nos aposentos, como ele ameaçava fazer, o miserável entregava à mulher o valor solicitado. Rubina batia à porta a cada cinco minutos, até depenar a vítima.

Sem direito aos prazeres do sexo por falta de clima e já totalmente descapitalizado, o coitado saia do quarto de fininho, rezando para não ser visto pela cara-metade da bela infiel. Desconsolado, nunca mais voltava ao camuflado cabaré da rua Geru. Uma sacanagem!

Generoso com os amigos e suas mulheres, Nelson costumava servir saborosas feijoadas nos domingos à tarde, numa mesa posta no longo quintal. Mesmo após ter deixado o trabalho no Hotel Norte-Sul, ainda frequentamos por algum tempo a Pensão das Mulheres para jogar conversa fora com o velho amigo, rir do famoso “quarto do casal” com um prego na parede, lembrar de “Chapéu de Couro” treinando tiro ao alvo em garrafas vazias de cerveja e, claro, filar a saborosa feijoada sergipana, feita no capricho por Florentino ou simplesmente “Flor”, um homossexual risonho e de meia idade, que pilotou o fogão da casa por todo o sempre. Não sabemos como e quando morreu o Senhor dos Anéis. Deus o tenha!

É editor do Portal Destaquenotícias

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